Antes que alguém me ataque, não sou eu que estou dizendo.
Ontem eu estava no meu office no campus, imprimindo uma pilha de artigos para ler no final de semana. Quando fui pegar meus papeis, reparei que do lado da impressora tinha um paper que alguém deixou lá: "Why Liberals and Atheists Are More Intelligent".
Não preciso nem dizer que o artigo me chamou a atenção.
Ele argumenta que pessoas mais inteligentes tendem a serem liberais (no sentido americano = esquerda), ateus e monogâmicos (só para os homens, já que para mulheres inteligência não afeta esse traço).
Acho muito engraçado, pra começo de conversa, que alguém possa afirmar isso com tanta veemência. Mas, no tal artigo, o cara faz alguma análise estatística com algum modelo de regressão e dois bancos de dados diferentes, e chega à dita conclusão. Devo confessar que não tive paciência de ler com cuidado a análise do cara pra ver se era furada ou não. Se alguém estiver interessado, essa é a referência:
Kanazawa et al. Why Liberals and Atheists Are More Intelligent. Social Psychology Quarterly, 2010; DOI: 10.1177/0190272510361602
O interessante é a parte em que ele tenta explicar evolutivamente o porquê desses "fatos". Aparentemente existe toda uma corrente de pensamento que defende que a inteligência teria sido selecionada na evolução como um modo de resolver problemas novos, raros, e/ou inesperados. Novos em relação ao ambiente onde se deu a maior parte da evolução da espécie humana: savanas.
Para os problemas comuns naquela época, nós teríamos reações instintivas de como reagir. Isso serve para a obtenção de comida, relações de família e amigos. Mas para coisas raras como um raio que incendeia a floresta, uma enchente que só acontece de 100 em 100 anos, queda de meteoro, ou uma visita de ET's, a habilidade de resolver problemas novos é importante. Tudo bem que a visita dos ET's é tão rara que dificilmente selecionará nos seres humanos as habilidades necessárias para lidar com isso. Mas, se todos esses eventos, individualmente raros, combinados acontecerem com frequência suficiente, pessoas com capacidade acima da média para resolver problemas novos terão sucesso evolutivo.
Ele parte dessa noção de inteligência como uma capacidade de, diante de novidades evolutivas, tomar decisões diferentes daquelas tidas como melhores em uma condição ancestral para explicar a afirmação do título. Mas para mim é ai que ele se perde um pouco. Os caminhos são um pouco tortuosos: A escolha do liberalismo, por exemplo, estaria ligada ao "novo conceito" de se preocupar com pessoas desconhecidas, e não só parentes de sangue e contatos próximos. E o gosto masculino pela monogamia seria uma forma que lidar com os "novos tempos", em contraste com boa parte da história evolutiva humana, em que teríamos sido levemente poligâmicos. Para as mulheres isso faria pouca diferença pois elas sempre tiveram apenas um marido, não que isso impeça as puladas de cerca.
O que dizer disso tudo?
Por mais que eu goste do tipo de argumentação evolutiva, sempre saio com a sensação de que isto não é sério. Que, sendo verdade ou não, toma a forma de historinha que se conta para criança. Mesmo que a gente assuma que a análise estatística do cara esteja certa, a linha de pensamento usada para a explicação tem um pouco de teoria por trás e um monte de especulação.
Deixo claro aqui que sou feroz defensora da teoria da evolução. E tem vários resultados concretos em diversos campos da biologia que a corroboram. Mas quando temos que explicar esses grandes acontecimentos, e principalmente coisas ligadas a traços de comportamento, muitas vezes os argumentos ficam um pouco frouxos. (Algo que sem dúvida, aos poucos vai sendo melhorado)
Mas vai dizer que a explicação para a evolução da inteligência não faz sentido e é bonitinha?
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